segunda-feira, 26 de março de 2012

Capítulo 4. O último.



Batidas na porta.


Eu: Entre...

Estava deitada na cama, de barriga pra baixo, olhando o escuro em baixo da cama. Não tinha nada lá, né...? Eu sei. Ficava mais fácil pra eu não pensar em nada.

Mãe: Trouxe um lanche.

Olhei pra ela e recebi um sorriso generoso em resposta. Ela era tão calma, tão compreensiva. Eu me sentia em dívida com ela, mas ela me devia explicações, então ela também devia estar se sentindo assim em relação a mim. Sempre quis saber porquê da separação, do abandono, de querer se reaproximar depois de tanto tempo...

Sorri ao ver em suas mãos um sanduíche e um copo sobre uma bandeja. Me levantei peguei-a.

Eu: Obrigada.
Mãe: De nada. - sentou-se ao meu lado - ... Se arrependeu?

Do quê? De ter tomado a decisão de vir pra cá? Como, se não fui eu quem decidi nada?

Eu: Não, não. - sorri tentando compensar a aparência cansada dos meus olhos relutantes.
Mãe: ...Eu nunca te alugaria se não fosse realmente importante...
Eu: Tá bom. - dei uma mordida no sanduíche.
Mãe: É... Quando seu pai me ligou, eu... Fiquei muito surpresa. De verdade, porque eu nunca crirei muitas expectativas a seu respeito. E não achei que você já fosse tão madura a ponto de tomar essa decisão.
Peraí. Tomar essa decisã?

Eu: É. Eu também me surpreendo com as minhas decisões. - franzi a testa e tomei um gole de suco.
Mãe: Você deve ter amigos em Manhattam e, seu pai deve ser o mais próximo de você desde sempre, não é?
Eu: Olha, de verdade, não precisa mesmo me alugar. Não precisa me explicar nada. Sem mágoas, tá?
Mãe: Tá. - ela sorriu insatisfeita. - Quer que eu te deixe sozinha mais um pouco?

Dei de ombros. Dizer que quero que você saia é que eu não vou fazer né?

Ela entendeu a minha expressão e saiu. Terminei o lanche e voltei a olhar para o escuro debaixo da cama. Por que ela disse que eu tomei a decisão? Eu nem me lembro de ter tomado decisão nenhuma na vida. Desde de quando eu tomo decisões que me deixariam depressiva e isolada do mundo? Desde quando? Foi então que o clarão do meu celular naquele escurinho clareou o espaço todo. Clareou minha mente também.
"Pai" chamando, mostrava o visor do celular. Droga. Agora tudo se encachava. Só eu mesma pra não ter percebido isso antes. Ele quem tomara a decisão.
Droga. Droga ao quadrado. Justo ele. A pessoa a quem eu mais amava no mundo me traíra. Se não fosse por ele nada disso estaria acontecendo. Eu estaria tranquila e em paz em Manhattam. Mas não. Ele tinha que ter tomado a droga da decisão de me levar pra longe dele.