sábado, 14 de janeiro de 2012

Capítulo 1.



"Queria que nada daquilo estivesse acontecendo. Queria profundamente que o que meus olhos estivessem vendo, o que meus ouvidos estivessem escutando fosse pura mentira, invenção... Sei lá. Mas nada do que eu não queria deixava de ser verdade.
As lágrimas escorriam, os olhos ardiam, a cabeça doía. Era tudo um grande problema. Era tudo doído, hematoma recente, grandes atitudes violentas e nenhuma palavra de amor. A não ser ele. A não ser o que ele dizia. A não ser a suas atitudes de certeza, que me protegiam e me consolavam diante daquele mundo de dúvidas onde eu me encontrava. Onde eu menos queria estar.
E ao mesmo tempo, as coisas iam se misturando, até chegar a um ponto em que se eu desistisse de sofrer, se eu desistisse de chorar, eu desistiria de nós. Desistiria de enfrentar o resto do que faltava pra que aquele eu e você fosse construído. Largaria aquele muro que gastamos tempo e sentimentos para fazer e deixaria que a minha vida me levasse para qualquer outro caminho desconhecido. E a única certeza que eu tinha era que aquele era o único caminho ao qual eu queria trilhar. E qualquer passo, qualquer "a", qualquer som fazia com que eu derrubasse um tijolo do muro de proteção em minha volta. Um muro que eu sabia que cairia a qualquer hora, mas me negava a acreditar."

Restrospectiva...

Estava dentro do avião, olhando as nuvens através da janela e obrigando aquelas lágrimas a voltarem para seus devidos lugares. Eu não queria chorar. Não ali, não agora. Porque eu esperava que minha intuição tivesse me enganando.
A questão era que eu não queria viver em outra cidade, não queria morar de novo com minha mãe. Não que eu não gostasse dela, mas a relação que eu e meu pai construímos, demorou muito tempo pra ser sólida. Foram anos e anos só eu e ele ali, na pequena casa em Manhattam e eu não queria destruir isso. Eu aprendi a criar uma relação de afeto e confiança com ele, e isso jamais seria possível se eu tentasse fazê-lo com minha mãe.

[...]
Assim que saí do local de desembarque, ela, minha mãe, veio imediatamente ao meu encontro, e eu ao dela.

Mãe: Como está a minha garotinha crescida? - ela me abraçava fortemente, me acolhendo em seus braços como se quisesse me proteger de tudo ali.
Eu: Bem...
Mãe: Senti sua falta, meu anjo.

Hesitei em responder, mas cedi em seguida:

Eu: Eu também mãe. - sorri ao desfazer o abraço.
Mãe: E como você veio na viagem? Foi tudo bem?
Eu: Foi sim, só demorou um pouco...
Mãe: Pra mim demorou a eternidade...

Sorri. Era doído pra mim pensar que o amor ao qual eu estava recebendo agora não era recíproco. Eu a amava, mas não o suficiente para ter a certeza disso.

[...]
Ao chegarmos em casa, ela me apresentou meu quarto e disse que não pintou as paredes de uma cor totalmente feminina, pois ela não sabia se adolescentes gostavam de rosa, roxo, ou vermelho.

Eu: Ficou lindo. A cor está ótima. - sorri enquanto observava o quarto.

Duas das paredes eram laranja e o resto branco. O guarda-roupas era o maior possível e a cama era de casal. De todas as minhas amigas de pais separados, eu era a única que tive sorte em relação a isso.

Mãe: Quer que eu te ajude com as malas?
Eu: Imagina, mãe. Está tudo bem, pode deixar que eu guardo tudo.

Pausa. 
Percebi que ela esperava que eu dissesse "sim" para que tivéssemos mais algum tempo juntas.

Mãe: Tudo bem. - ela sorriu amarelo. - O almoço já está pronto, você pode descer quando quiser.
Eu: Eu vou daqui a pouco então. - sorri.
Mãe: Tudo bem. É... Eu vou descer, mas qualquer coisa, você me chama. Tá?

Fiz que sim com a cabeça.

Mãe: Qualquer coisa mesmo. - ela sorriu e saiu do quarto.

Uma enorme dor na garganta surgiu e eu já sabia o que era. Era o choro pedindo passagem pra desmoronar-se através dos meus olhos. Sentei na cama e cobri meu rosto com as mãos. Não era possível que alguém tão forte como eu fosse capaz de chorar por causa da distância.

"Distância são meros quilômetros perto do que eu construí em Manhattam. Não preciso chorar por causa disso."

Levei algum tempo para me recuperar, e imediatamente depois, desci para almoçar. Se eu ficasse mais um pouquinho sozinha, acabaria cedendo às lágrimas.


Segunda-feira, 09:40 a.m. Na frente do meu novo colégio.

Mãe: Carla, não fique com medo, está bem? Tenho certeza de que todos irão te receber muito bem aqui.
Eu: Eu estou bem, mãe. Pode deixar, não vou ter problemas quanto a isso. - sorri confiante, despedi-me dela e atravessei o portão da escola. Meu estômago dava cambalhotas dentro de mim.

Ao passar pelo portão da escola, me preocupei em fitar constantemente meu all star. Não queria manter contato visual com ninguém.
Ao entrar na diretoria, mostrei a declaração do meu antigo colégio e a atendente de guiou até minha nova sala. A vontade era de sair correndo.

Ao bater na porta, a professora fez sinal para que eu entrasse. A atendente se despediu e eu abri a porta bem devagar. Todos olhavam pra mim.

Professora: Olá. Você deve ser a Carla... - verificou um papel em sua mesa - ...Baker?
Eu: Sim... - sorri envergonhada.
Professora: Seja bem vinda - sorriu e se virou para os alunos - Bom, turma, hoje nós estamos recebendo uma aluna nova, Carla Baker.

Alguns disseram "oi". Respondi um pouco mais alto.

Professora: Pode se sentar ali, atrás de Christian. - ela apontava para um garoto com os cabelos jogados para o lado e ele ergueu a mão.

Caminhei em direção a ele, esperando que ele me cumprimentasse para que eu não tivesse que ignorá-lo e passar por rude ou alguma coisa parecida.

Christian: Oi. Pode me chamar de Chris. - ele sorriu.
Eu: Oi. Carla. - apenas sorri, pois ele já sabia o meu nome.
Christian: Você vai precisar das matérias anteriores ainda? - ele me acompanhava com os olhos até eu me acomodar.
Eu: Como assim...?
Christian: Se ninguém te passou as matérias, eu posso te ajudar.
Eu: Ah, claro. Tudo bem, então. Obrigada. - a última palavra ele quase não pode ouvir.
Professora: Bom, Carla. Eu sou a Rose e ensino Literatura. - ela sorriu e eu fiz o mesmo.

Ela retomou a aula e, enfim, eu pude relaxar.

Mas eu não sabia como fazê-lo. Os alunos de vez em quando me olhavam, conversavam com alguém ao lado e parecia ser sobre mim. Isso é bem o tipo de situação que não me deixa relaxar.

*Bate o sinal*

Todos saem desesperadamente para fora, como se o ar da sala estivesse contaminado, acabando ou alguma coisa assim.

Levantei sem pressa, depois de guardar os materiais que nem usara. A professora logo me chamou:

Professora: Bom, eu tenho alguns textos das matéria anteriores que passei anotadas no caderno, e certamente você irá precisar delas para que possa estudar para a prova. Então eu pensei que poderia te emprestar o caderno, mas o restante você terá que arranjar com outros alunos.
Eu: Mas é que o garot...
Christian: Não se preocupe, professora. Eu tenho todos os textos - inclusive de todas as matérias - e já me propus a emprestar os meus cadernos.

Olhei para trás e o agradeci com os olhos por me poupar de explicá-la alguma coisa. Ele entendeu e assentiu.

Professora: Sendo assim, com licença. - ela sorriu, pegou suas bolsas na mesa e saiu da sala.

Bem, se antes eu o agradeci por me poupar conversas, agora eu o culpava por me deixar sozinha, com ele, sem ter como sair dali sem falar alguma coisa.

Sorri instantaneamente e caminhei lentamente para a minha mesa.

Christian: Você conhece alguém aqui? - pôs as mãos nos bolsos da blusa.
Eu: Eu...? Não.
Christian: Bem, eu tenho muitos amigos - pausa - Eles são bem legais...! E, eu pensei que quisesse companhia no almoço. Pra não ficar sozinha, sabe. Eu sei como isso é horrível...
Eu: Muito obrigada, mais uma vez, mas eu estou bem. - disse da maneira menos rude possível - De verdade. - sorri, mentirosa.

Ele sorriu de volta:

Christian: Bem, então, sendo assim - ele disse imitando o jeito de andar da professora - Com licença! - começou a rir.

Sorri de canto e o segui com os olhos até que ele saiu da sala. Fiz o mesmo logo depois.

Andar naquela escola era terrivelmente apavorante. Ninguém sabia quem eu era, eu não sabia quem eles eram. Era meio como andar sobre um campo minado - você nunca sabe onde está pisando.
Eu estava com fome, mas não o suficiente para me fazer enfrentar a fila gigantesca para comprar a comida. Olhava para um lado, olhava para o outro. Ninguém me parecia familiar. Isso era algo que eu já esperava, mas constatar aquilo me frustrava mesmo assim.
Depois de andar um pouco para conhecer a escola, vejo Christian, o garoto com quem conversei na sala de aula. Ele estava com seus amigos, eu deduzi. Sorria, brincava, fazia o possível para parecer feliz. Mas talvez ele não se esforçasse. Talvez ele estivesse mesmo se divertindo com os amigos. Como ele havia dito, "Eles são bem legais...!". Por um instante me arrependi de ter recusado o seu convite, ele parecia ser legal. Fiquei pensando se quando nos falássemos de novo - provavelmente para me emprestar seus cadernos - ele iria agir da mesma maneira convidativa e simpática.

Ao chegar em casa, minha mãe me perguntou como havia sido, e eu respondi da maneira mais alegre possível que todos me receberam muito bem, e que mesmo no primeiro dia, já havia feito muitos amigos. Ela me pareceu feliz com a resposta.

Quinta-feira, 12:10 a.m. No colégio.

Era hora do almoço e, Christian havia me chamado para saber quando poderia me emprestar os cadernos.

Christian: Eu só não posso te emprestar todos de uma vez, então o dia que eu não tiver lição em alguma matéria eu empresto. Tudo bem pra você?

Estava um pouco desligada, olhando para seus amigos ao redor de um banco na grama, bem atrás dele. Estavam tão sorridentes que a minha vontade era de  me intrometer na brincadeira a qualquer momento. Me lembrei do que estava me fazendo ficar assim, do quanto eu sentia falta de um amigo.


Christian: Carla...?


Olhei-o rapidamente e respondi:

Eu: T-tudo bem. Tá, tá bom! Então eu... Quando eu posso pegá-los?
Christian: Pegar o que? Os livros? Ah, quando eu não tiver lição na matéria, lembra?
Eu: Ah, desculpa... - sorri amarelo e involuntariamente voltei a olhá-los.

Christian seguiu meus olhos e sua expressão dava a entender que ele não entendia o que eu estava fazendo olhando seus amigos, já que recusei seu convite para conhecê-los.

Christian: Ah, você os achou! - ele disse sorrindo - Deixa que eu apresento: aquele idiota usando a toca de pato é o Ryan; a menina loira tentando tirar a toca dele é a Payton; do lado dela está minha irmã, a Caitlin. Ela é mais velha que eu, todos são. Bem... Aquele ali, olha - ele apontou -, aquele com cabelinho de gay - fiz uma careta. Não entendia nada, porque Christian falava isso se tem exatamente o mesmo tipo de corte? -, ele acabou de jogar pro lado, viu? É o Justin, o namorado dela; do lado dele tem alguém bizarro rindo escandalosamente - é o Chaz. Os outros ao lado são minha prima Becca, e uma amiga nossa, Kristen. Todos eles tem a mesma idade - ele disse um pouco frustrado, eu sorri com sua reação - Isso é injusto, porque só eu sou mais novo. Eles me enchem o saco 25h por dia.

Soltei uma gargalhada exagerada, eles puderam ouvir. Parei e corei exatamente na mesma hora. Olhei ridiculamente para meu all star.

Christian: Que foi? Não fica com vergonha não...! Vem - ele segurou minha mão e me puxou em direção a eles -, vou te apresentar e te provar que eles são legais.
Eu: Eu tô bem! - fazia esforço pra permanecer o mais parada possível.
Christian: Ah, você sempre diz isso: "Eu tô bem!" - me imitou com uma voz fina e engraçada - Eles não vão morder. E além disso, não vão fofocar sobre você com ninguém. Eles são... Diferentes. - disse a última palavra com um tom mais sensível e calmo.

Relaxei no mesmo instante, mas a minha face ainda não mudara. Eu estava confusa sobre o que estava prestes a fazer. Pode-se dizer que isso é uma forma de rejeitar os seus amigos, só porque os deixou pra trás e, passar a preencher seus lugares com novas pessoas? Com desconhecidos?

Eu: Christian...
Christian: Chris! - ele interrompeu - Por favor. - sorriu.
Eu: Tudo bem, Chris. - minha face retomou à expressão atordoada - Eu não sei se isso seria uma boa ideia. Pelo o que vejo há alguns dias, vocês parecem se conhecer há bastante tempo.
Chris: E...? - ele dizia como se isso não importasse ou não fizesse o menor sentido.
Eu: Eu acho que seria desconfortável se eu... Se eu tentasse criar um lugar pra mim ali no meio deles, do nada.
Chris: Todos nós um dia fomos desconhecidos. Até minha própria irmã teve que se acostumar comigo quando eu nasci.

O jeito como ele argumentava simplificava a situação pra mim. Era calmo, e divertido ao mesmo tempo. Eu sabia que podia confiar nele.

Sorri involuntariamente. Não queria ser rude então, eu aceitei.

Continua no próximo capítulo...

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