terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Capítulo 3.


Chegando em frente à porta, perguntei se não seria perigoso entrar ali e sermos pegos, mas ele disse que já havia feito isso algumas vezes.

Justin: Cuidado onde pisa. - ele pôs suas mãos em minhas costas, tentando me guiar. - Eles não deixam as luzes acesas de jeito nenhum.
Eu: Uhum. - assenti.

Viramos à esquerda em um dos corredores e abrimos uma pequena porta de aço, que dava direto para a avenida dos fundos do McDonald's.

Eu não conseguia dizê-lo "Então... Obrigada. Tchau". Era bom ter uma companhia silenciosa, compreensiva, calma, pensei novamente.

Ao sairmos, o sol já estava mais baixo, iluminando os nossos rostos diretamente nos olhos.

Justin sorriu pelo nariz:

Justin: Seus olhos ainda estão vermelhos. - murchou o sorriso logo em seguida.

Sorri de leve e tentei mudar de foco:

Eu: Os seus - dei ênfase na última palavra -: São sempre assim? Quer dizer, são cor de mel bem clarinho sempre?
Justin: Sim. - juntou as sobrancelhas enquanto afirmava - Mas eu achei que fossem castanhos-claro. - suavizou a expressão.

Sorrimos.

Justin: Se não for pedir muito - começamos a andar automaticamente -, você pode me contar o que te deixa tão distante de nós?

Pensei que ele fosse insistir em cutucar minha ferida, mas suas palavras desviavam do meu caminho. Não me atingiram de forma alguma... Porque ele era tão diferente?

Eu: Como assim? - meu tom estava rígido.
Justin: Não, não tô te forçando a me contar. - ele se explicava preocupado - É só se quiser.

Viramos a esquina à direita.

Pensei um pouco com a expressão desentendida e resolvi:

Eu: Eu não sei se conseguiria me entender - passei as mãos sobre os olhos, procurando limpar qualquer lágrima que tivesse ficado.
Justin: Tenta. - seu tom parecia ter sido mais animado do que ele desejava - Quer dizer... Se quiser.

Seus olhos me fitaram, o sol ainda os iluminava.

Eu: Se eu te falasse em substituição; troca. - observei sua expressão atenta. - O que você poderia dizer sobre isso?

Ele pareceu refletir sobre as duas palavras, até que em breves segundos, descreveu seus pensamentos:


Justin: Eu poderia comentar que é inevitável. Faz parte do ciclo da vida. É apenas uma consequência das suas escolhas.

Franzi a testa. Ele não tava falando sério.

Justin: Talvez seja até inevitável. - deu de ombros.

Minha mente mergulhava totalmente nos seus comentários.

Ele sorriu.

Justin: Você sabe como voltar pra casa?

Arregalei os olhos.

Eu: Quanto tempo andamos?
Justin: Só viramos a esquina.
Eu: Ah. - minha expressão era de alívio. - Acho que conheço aquela rua.
Justin: ... Preciso voltar. Caitlin deve estar preocupada com a nossa demora.
Eu: Ah, tá bom. Obrigada. - sorri.
Justin: De nada. - curvou levemente os lábios e pediu um último favor - Fica bem, tá?

Assenti. Observei-o correr pela rua paralela e quase chegar à esquina. Lá estava Caitlin, seus gestos demonstravam levemente aflição. Ele a envolveu em seus braços, parecendo explicar o que ouve ao mesmo tempo. Caminharam em direção oposta à minha. Esperei até que eles virassem a esquina e segui para casa.


Mãe: Ué, cadê o lanche? - estava na cozinha bebendo refrigerante.
Eu: Ah, desculpa... Mãe. - eu não sabia o que fazer. Fiquei parada na frente dela, as mãos inquietas, meus olhos evitando os dela.
Mãe: Mas... Eu não te pedi pra ir lá no... - desistiu de completar a frase, vendo o meu desânimo, quase chorando.
Eu: É, mas... Eu... Não... Achei o... Lugar. - tirei o dinheiro do bolso e pus na mesa.

Subi pro meu quarto e tranquei a porta.
A minha sorte é que minha mãe não é do tipo de pessoa que fica te sufocando, sabe. Ela dá o tempo da pessoa pensar, deixa você tentar se cuidar sozinho, e depois vê se pode ajudar.


Dessa vez eu não tentei desabar tudo. Eu estava bem controlada e não precisava mais fazer isso. A minha preocupação se dirigia somente a Caitlin e Justin. Talvez eles não queiram mais ser meus amigos depois disso, pensei.
Ninguém iria querer como amiga uma garota depressiva, chorando por todos os cantos, se culpando toda hora e... Chega, pensei, outra vez. Eu tinha que tomar uma atitude e parar de ser... essa pessoa esquisita.

Um estalo ligou minha mente no modo insano de novo.
Liguei pra todos os meus amigos de Manhattam - James, Clarice, Hailey... Esta última me pareceu a menos despreocupada comigo. Mas todos eles pareciam arredios e estranhos, como se fosse a nossa primeira conversa. Eu não conseguia achar a minha naturalidade nas perguntas, nas palavras, palavras essas que saíam forçadas, com cuidado, algo que nunca precisamos fazer nenhuma vez.

Depois de desligar o celular, passei por uma crise de choro que, na verdade, eu havia forçado, e sabia que não precisava tê-lo... Mas parece que algo ordenava dentro de mim, me mandando desabafar tudo de uma vez pra nunca mais ter que fazer isso. Como se eu fosse capaz de controlar as lágrimas. Tinha uma vozinha que dizia que eu teria que botar um ponto final de verdade nessa história de Manhattam. Mas como se bota um ponto final na sua história? Como se apaga a sua vida? Eu não sabia a resposta e mesmo assim obrigava a mim mesma a achá-las.

Bem ou mal, o problema todo era que eu não havia escolhido ter tantos lados distintos e temperamentais e, muito menos que eles estivessem em crise justamente agora. Um lado me dizia pra manter o controle, e que nada era tão horrível como eu pensava. Outro lado me ordenava a admitir que eu tinha culpa em estragar a minha vida simplesmente pelo fato de eu ter nascido e, que o melhor a fazer era chorar, sofrer e espernear o quanto fosse. Mas tinha um outro lado que... O outro tinha uma vontade enorme de acabar com isso tudo; de superar todas as cicatrizes, de não apagar as lembranças e sim aprender a lidar com elas de uma maneira que eu sempre as recordassem com um sorriso sincero no rosto. Esse meu terceiro lado, queria ser amigo de todos, queria mostrar o meu melhor, demonstrar o quanto eu podia amar alguém. Mas o problema dele é que esse outro lado... Ele não vencia nenhum dos outros, ao contrário; ele se escondia e quando havia algum silêncio, ele sussurrava, implorando para que eu o ouvisse e aceitasse a sua proposta. Porém ele não possuía força alguma para isso. Ele se sufocava no grito dos outros.

Às vezes eu me achava sentimental de mais, ora de menos, e às vezes, completamente controlada. Se nem eu mesma me entendia, então como era possível desconhecidos, como Chris e seus amigos, e até mesmo os amigos de Manhattam e, minha mãe, de certa forma... Como essas pessoas todas poderiam conviver comigo?

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