Eu: Mas... - parei repentinamente - Você me promete, Chris? Me promete de verdade que se eu estiver atrapalhando, se eu me sentir atrapalhando, e eu quiser ir embora, você vai deixar? - minha voz mostrava um desespero sincero.
Chris: O que? - é claro que ele não entendia.
Eu: Não é nada, mas só diz que promete?
Chris: Tá bom, então... - ele ainda me olhava estranho, quando abriu de novo um sorriso - Vem.
Dessa vez ele me deixou escolher entre soltar sua mão e continuar seguindo-o. Escolhi a última opção.
Chris: Oi, pessoal. - ele disse ainda mais sorridente.
Todos: E aí, Chris?
Chris: Essa é a Carla. Ela é novata aqui. Achei que gostaria de... Uma nova cobaia. - ele sorriu, malicioso.
Olhei pra ele como se eu precisasse fugir naquele mesmo instante. 'Cobaia'?? Todos riram.
Alguns me olhavam analisando os meus gestos, antes de se aproximarem, e outros estavam sorrindo.
Ryan: E aí, Carla? - ele disse sorrindo, se levantando para me cumprimentar com um beijo ousado no rosto - Meu nome é Ryan. Prazer, viu?
Eu: Igualmente... - disse um pouco ou muito tímida.
Payton: Oi! - ela disse se levantando e me cumprimentando. - eu sou a Payton.
Eu: Oi, Payton - sorri sem precisar forçar. - Chris estava falando de vocês pra mim.
Alguns segundos depois, a tensão sumiu e todos vieram se apresentar.
Um garoto em particular, me chamou atenção; tinha os olhos tão vivos que me prenderam instantaneamente. Se levantou antes de todos e me cumprimentou normalmente, sem mostrar estar querendo me prender naquela cor mel dos seus olhos. Não entendia o que havia de errado naquilo, mas eram vivos e não se faziam esquecer, nem sequer bloqueá-los da minha mente eu conseguia. Eu só podia estar paranoica.
Justin: Oi - ele disse se afastando um pouco - Ju..
Eu: Justin. - interrompi. - Er... Acho que ainda lembro de... de todos os nomes. Chris me falou a pouco tempo.
"Como assim...? Não devo explicações...!"
Apesar do enorme medo de não ser aceita e da timidez, consegui lidar muito bem com todos,que, sem exceção, falavam incansável e incontrolavelmente sobre coisas aleatórias. Eu mal tinha tempo para processar as palavras.
Os Beadles - Caitlin, Becca e Chris - eram muito bons em contar piada, enquanto Chaz, Ryan e... Justin, o garoto dos olhos diferentes, eram excelentes encrenqueiros - acabavam com suas piadas, desdenhando o motivo de tantos risos. Mas eu estava do lado de Kristen e Becca, que sempre arranjavam uma maneira de fazer as duas "gangs piadistas" encrencarem.
Ao bater o sinal, todos se despediram e caminharam de volta às suas salas. Como o esperado, Chris ainda não havia terminado de conversar comigo sobre todos os assuntos que queria. Então eu sempre olhava para a professora, tentando fingir que prestava atenção na sua aula.
Chris parecia tão atento às minhas reações, que eu quase pensei em desistir de ser sua amiga. Qualquer gesto meu, necessariamente, teria que significar alguma coisa pra ele. E se ele não conseguisse decifrar, perguntava.
Chris: Você está chateada comigo? - ele perguntou, pela milésima vez, depois de me ver suspendendo as bochechas com as mãos em punho.
Eu: Ah... Não, não! - disse rapidamente assim que voltei a prestar atenção em Chris.
Chris: Ah... Então - Ryan perguntou se estava sendo indiscreto demais dando cantadas na garota de olhos claros e sabe o que eu respondi? - disse num tom calmo e esperou até que eu perguntasse "O quê?" - "Ah... Não, não!" Igual a você. - ele disse sorrindo animadamente - Mas eu estava sendo irônico sabe...?
"Isso foi uma indireta?"
Chris: ...Então aquela garota, a Sandy, sugeriu que era melhor levá-lo pra casa. Ele estava tropeçando nas próprias pernas e Justin não aguentava mais de tanto rir. Eu tenho quase certeza que se tivéssemos ficado na casa das garotas mais um pouco, os policiais não tinham nos pegado.
Sorri sem mostrar os dentes.
"Alguém aqui é normal o bastante para não parecer um papagaio?"
Almoçando em casa depois do colégio.
Eu: Não que eu tenha achado eles muito... Entediantes e enjoativos pelo fato de falarem demais... - expliquei à minha mãe ao comentar sobre meus supostos novos amigos. - Só não estou acostumada em manter longas conversas, dessa maneira.
Olhei novamente para analisar sua reação. Ele pareceu entender.
Mãe: Então... Eles são... Tagarelas? - agora me parecia interessada.
Eu: Bom, isso é um modo diferente de se olhar, mas tudo bem. - sorri amarelo. Não tinha como esconder mais.
Mãe: Você é novidade pra eles, que já são amigos há mais de anos. Só espera um pouquinho, eles vão diminuir a curiosidade com o passar dos dias. - sorriu - Só não quero que perca a paciência e decida ficar sozinha outra vez.
Ela falava como se visse um futuro breve. Como se presumisse que eu tomaria essa decisão. Me irritei por ela achar que poderia tomar o rumo da minha vida por mim. Escolher coisas que me diziam respeito.
"Talvez eu não esteja acostumada com Atlanta, e o jeito como as pessoas se tratam aqui. É só isso, Carla, é só isso..."
Mãe: Mas isso mostra que eles gostaram de você, não é?
Sorri desconfortavelmente tentando manter a calma. A irritação que surgia quando minha mãe se permitia participar da minha vida mais do que eu estava pronta pra permitir me tirava do sério.
Mãe: Ah... Falando em se acostumar: será que você poderia comprar algumas coisas pra gente ali no Mc'?
Eu: Ah... claro - meu sorriso amarelo.
Ela me deu o dinheiro e disse como chegar lá.
No caminho, andei pensando na culpa que eu sentia por ter esquecido dos meus amigos de Manhattam durante quase uma semana inteira. Isso me fez refletir sobre a palavra "substituição". Eu havia prometido que os ligaria assim que pudesse; não liguei pra nenhum deles nem uma vez sequer. Estava entretida demais cobiçando os amigos alheios - nesse caso, os amigos de Chris - pra lembrar que eu já tinha os meus. Apalpei os bolsos da calça jeans e encontrei meu celular. Disquei o número de Lilly, já estava na calçada do supermercado.
Parei em frente a porta do McDonald's virando para o lado esquerdo. Se eu chorasse, poucos veriam.
?: Alô?
Eu: Lilly...? - respondi com medo de que fosse ela. Mas pela voz, não haviam chances de ser outra pessoa.
Lilly: Sim? Quem é?
Eu: Lilly...
Lilly: Oi, Carla... - sua voz me comovia. - Você nem ligou...
Eu: Desculpa, Lilly. Eu estava muito ocupada...
"Te substituindo."
Eu: ...arrumando minhas coisas aqui. Eu precisava me organizar direito.... Emocionalmente. - eu me sentia a pior pessoa do mundo mentindo pra ela em relação a isso.
Lilly: Ah...
Eu sabia que ela estava se segurando pra não chorar. Senti que ela esperava um motivo melhor pra não ter ligado. E também esperava poder chorar de alívio, mas nessa situação, nunca iria admitir a fraqueza de forma tão humilhante.
Eu: Mas eu prometo - deixei minha voz falhar sem querer - que eu vou ligar sempre, sempre, sempre, tá bom? Não se esqueça...
Poças d'água se formavam ao redor de seus olhos. Quem disse que eu não podia ver?
Lilly: Eu sinto sua falta, Carla. Você sabe disso. Eu vou esperar sempre que você ligue.
Ouvir aquilo era como enfiar um dardo em meu peito, e sair rasgando minha pele como se eu fosse um alface frágil. Exagerado, não é...? Mas era tudo exatamente assim.
Eu: E o resto do pessoal? Como estão?
Lilly: James sente sua falta desde que você disse que iria se mudar. - ela disse rindo - Mas Clarice se recusa a dizer que sente. E Hailey... Eu nunca mais falei com ela.
Respirei fundo e me esforcei para não lembrar dos seus jeitos únicos. Eu amava cada um.
Eu: Lilly, eu preciso desligar. Minha mãe quer que eu compre uns lanches pra gente. - pelo menso sobre isso eu teria que ser honesta.
Lilly: Ah... tudo bem. Se cuida.
Eu: Você também.
Lilly: Tchau.
Eu: Tchau...
Esperei 2 segundos para desligar. Limpei o rosto, pois senti que quando pisquei as lágrimas caíram. Entrei no Mc' e entrei na fila.
O lugar era amplo e, se não fossem pelas pessoas conversando sem parar, as gotinhas que estavam se acumulando nos meus olhos já teria caído há muito tempo. Fazia o maior esforço possível para que elas voltassem, mas eu não conseguia.
Sempre me culpei por ser dramática de mais, ansiosa, por me culpar sempre pelo inevitável e por chorar por tudo. Mas agora estava na hora de agir e me tornar o oposto disso.
Mas dizem que falar é fácil - pensar também - e agir é que o grande problema. Eu estava me sentindo uma verdadeira ratinha fugindo dos meus problemas desse jeito - e preferindo chorar e sofrer a resolvê-los.
Não aguentei por muito tempo e pisquei, mas desta vez, todo o acumulado foi descendo de uma vez só. Uma sensação de fracasso me contaminava e eu não conseguia entender exatamente o porquê.
Senti alguém me chamando, enquanto limpava as lágrimas.
"Nossa, mas minha mãe não consegue esperar nem que as minhas lágrimas sequem?"
Esperei mais um pouco antes de me virar.
?: Carla...?
Congelei na mesma posição em que estava. Não era a minha mãe; mesmo. Mas a voz era familiar.
Eu: Oi... - limpei ainda mais rápido e me virei.
"Fracasso total..."
Justin e Caitlin estavam ali, me olhando executar o lindo processo de fracasso total.
Caitlin: Você tá chorando, Carla? - ela disse num tom relativamente baixo.
Eu: Não! É só... - saí rapidamente para a parte de trás do McDonald's.
Eu era um fraca. Não sabia tratar ninguém com consideração. Nem a mim mesma.
Sentei da forma mais encolhida que pude, tendo "sorte" por ninguém estar estacionando ou saindo dali.
Comecei a chorar o máximo que podia - sem emitir nenhum som -, pra ver se as lágrimas iam embora de uma vez e eu conseguia andar pelas ruas de uma forma decente. Mas, como a sorte tinha sido muito grande quando percebi que estava sozinha ali, alguma coisa tinha que dar errado.
?: Carla... O que aconteceu? - alguém tocou meus ombros.
Eu não queria levantar a cabeça, principalmente porque meus olhos deviam estar vermelhos.
?: Cailtin está preocupada com você - sentia o arrepio que suas mãos, descendo até meus cotovelos e parando, me causaram; ao mesmo tempo em que sua voz surtia o mesmo efeito.
"Eu também já ouvi essa voz."
Levantei meus olhos. Era engraçado, mas nele eu confiava. Bastante até, porque eu simplesmente detestava quando me olhavam chorar. Mas, de alguma forma, eu sentia que ele poderia me entender.
Justin: Ela não veio até aqui porque pode parecer desconfortável pra você. Então ela pediu pra que eu dissesse alguma coisa... - ele explicava, enquanto a incerteza guiava sua voz. - Mas, sinceramente...? Eu não sei o que dizer.
Segui os seus olhos, até que ele se sentou ao meu lado. Desviei os meus olhos inchados pra bem longe.
Justin: É, eu não sei como isso pode te ajudar.... - ele fez uma breve pausa - Mas, tudo vai ficar bem.
Eu: Tem certeza? - eu o desafiei, ainda olhando longe.
Justin: É sempre o que me dizem quando estou assim. E sempre no que eu acredito quando me sinto assim, triste. Confuso.
Eu: Você não sabe nem da metade...
Justin: Tá certa. Não sei.
"Cadê aquele 'mas' que todos usam depois de frases assim??"
Mas era bem isso o que eu estava querendo. Nenhum conselho. Só uma presença silenciosa.
Eu: Eu não gostaria que ela me visse assim... - ele pareceu não entender. - Não gostaria que Caitlin me visse assim.
Justin: Hm... Posso te ajudar a sair daqui, aí você volta pra casa e eu digo que você preferiu ficar sozinha.
Eu: Obrigada. - sorri. - Seria ótimo.
Levantamos e fomos para o portão de funcionários, que dava para o outro lado do McDonald's.
Continua...

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